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Capítulo 1
Um dos segredos mais bem guardados de Cuba é que,
durante vários anos, o indivíduo mais respeitado no Diretório
Geral de Inteligência era a coronel Victoria Valiente, uma
psicóloga.
O general'brigadeiro Edmundo Lastra (codinome Gabriel)
era o di-retor-geral, o coronel Enrique Morera (Bernardo)
era seu assistente, mas a mulher que comandava a seção Miami
do Departamento de Estado dos Estados Unidos ganhara a
admiração dos superiores e subordinados devido à sua longa
lista de notáveis realizações. Sob a sua orientação, a seção
apresentou relatórios, emitiu alertas, e fez previsões
consideradas extremamente valiosas pela liderança do país.
Conseguiu isso plantan' do novos e bem treinados agentes
secretos na área da Grande Miami, acionando agentes
infiltrados, aprovando o recrutamento de valiosos informantes, se
opondo ao alistamento de alguns que acabaram se revelando
informantes do FBI, examinando exaustivamente fontes
públicas e /acendo suposições com fundamento e geralmente
corretas.
Conhecida na comunidade de inteligência da ilha pelo
codinome MÍ-caela, Victoria foi transferida do Ministério das
Forças Armadas Revolucionárias para o Diretório Geral de
Inteligência do Interior em fins de 1989, na esteira de um
escândalo de contrabando de drogas envolvendo a inteligência
cubana corrupta e oficiais militares. Em 12 de julho daquele
ano, o mundo ficou sabendo que quatro dos culpados foram
executados por pelotões de fuzilamento.
Em 1983, Victoria entrou para o Departamento de
Contra-inteli-gência Militar do Ministério das Forças
Armadas Revolucionárias, logo após se formar na faculdade
de psicologia da Universidade de Havana. Na época, só havia
visto os instrumentos de seu ofício — aparelhos de escuta
telefônica, mini-câmeras e detectores de grampo — no cinema.
Ela ignorava criptologia elementar, só havia disparado uma
pistola duas vezes na vida e detestava judô, caratê e outras
formas de combate desarmado. Nunca viajara para o
exterior.
Fisicamente, Victoria era um pouquinho abaixo do sem
graça. Quando criança, um de seus professores na escola
primária brincava dizendo que a mãe. dela jogara f ora o bebê
e criara a placenta. O que parecia estranho, tanto para os seus
pais quanto para os seus professores, era o fato de Victoria
conseguir boas notas nas provas, apesar da menina as-mática
e vesga raramente ler os livros da escola.
Embora a sua aparência tenha melhorado notavelmente
durante a puberdade, Victoria cresceu meros l ,57m, nunca
pesou mais de 50kg, tinha um rosto extremamente comum, e
usava seu cabelo castanho-claro em cachos. Os óculos,
necessários para corrigir o astigmatismo, tornavam
inexpressivos os olhos verdes, e sua figura era mais angular do
que arredondada nos lugares onde importava. Nem os velhos
tarados nem os jovens rapazes virgens a cobiçavam quando
ela tomava banho de sol na praia vestindo um sunquíni.
Talvez por esse motivo, de um ponto de vista sexual,
Victoria viveu como uma santa. Perdeu a virgindade aos 21
anos e, quando se casou, 11anos depois, havia feito sexo com
apenas três homens. Contrário ao mito popular, esta mulher
muito sem graça, nada atraente, freqüente mente
experimentava três orgasmos em meia hora e, depois de dez
anos de casada, instigava o marido a praticar sexo de duas a
três vezes por semana, quatro se ele topasse. A falta de
motivação para dar à luz ou a falta de jeito para a
maternidade a fizeram tomar pílulas contraceptivas durante
17 anos consecutivos.
Mas o notável apetite sexual não era a qualidade mais
admirável da Sra. Valiente. Ela possuía três outras virtudes,
entre elas a inteligência.
Admiradora e discípula do psicólogo inglês RaymondB.
Cattell, ela leu 17 de seus 41 livros e muitos de seus artigos.
Cattell foi o primeiro a postular que o problema chave na
psicologia da personalidade era a
previsão do comportamento. Ele classificou as características em três
categorias: dinâmica (aquilo que leva um indivíduo a entrar em ação para
akançar um objetivo), habilidade (que diz respeito à eficácia individual para
akançar um objetivo), e temperamento (aspectos como disposições, humores
e emoções). Após a sua transferência para o Diretório Geral de
Inteligência do Interior, Divisão de Pessoal, Departamento de Avaliação,
Victoria desenvolveu uma teoria própria de como fazer o perfil
psicológico a distância de um futuro espião baseado nos ensinamentos
de Cattell.
Ela estudava os arquivos de candidatos enviados por autoridades de
campo, rejeitava vários e pedia informação adicional sobre aqueles que
pareciam ter possibilidades latentes. Então, eliminava mais alguns, recomendava
quais os agentes que se aproximariam dos poucos escolhidos e
escrevia roteiros. Com um bom faro para a política, Victoria acompanhava
os acontecimentos mundiais diariamente para escolher aqueles
que, caso mencionados a um candidato a informante ou a um informante
já na ativa, pudessem fortalecer a sua decisão de trair seu governo,
instituição ou empresa. Ela preferia que o recrutamento fosse baseado
em afinidade ideológica, mas deixaria de lado os seus escrúpulos caso a
chantagem ou o sexo fizessem o gato sair do saco. Em uma Cuba imobilizada,
comprar informação era uma medida de último recurso.
Durante os seus quatro anos de avaliação, Victoria fez o perfil de
muitos possíveis informantes: gente que trabalhava para o Ml6, o Vaticano,
DGSE, Sisde, FÍS*, o Serviço de Segurança Federal, três diferentes
agências das Nações Unidas, a Comissão Européia, os
Ministérios das Relações Exteriores da Alemanha e da Espanha, a
presidência do México, a Anistia Internacional, a Roche e a Aventis.
No meio tempo, devorava livros de espionagem. O tenente encarregado
da biblioteca do Diretório de Inteligência ficou absolutamente
maravilhado e acabou compilando uma lista: em quatro anos, Victoria
lera 132 livros, incluindo todos os clássicos. Era sempre a primeira a
ler os novos títulos.
Afinal, sua opinião acabou se tornando altamente respeitada e suas
recomendações raramente eram questionadas. Mas não foi sempre assim.
No início dos anos 1990, seu superior não conseguiu acreditar que ela
falava a sério quando solicitou levar um promissor candidato à Disney
World para pedir que trabalhasse para o serviço secreto cubano naquele
momento. Em outra ocasião, ela sugeriu recrutar um padre piedoso de
66 anos que ouvia as confissões de um agente. Em ambos os casos o
superior, agora aposentado, pediu-lhe que ela o convencesse. Ela o
fez sem paixão, usando o seu método de perfil psicológico remoto. Foi
tão convincente que os dois planos foram aprovados. E funcionaram.
Em 1993, algumas semanas depois que ela. impressionou a todos ao
planejar o recrutamento de um grande cientista europeu, que concordara
em revelar resultados das pesquisas de sua empresa em busca de
uma vacina contra a AIDS, ordenaram que Victoria comparecesse a um
escritório no terceiro andar do Conselho de Estado, às Wh, onde lhe
pediram para fazer o teste de QI da Mega Society.
Isso foi muito surpreendente para ela, porque, antes da queda do Muro
de Berlim, os partidos comunistas no poder apresentavam uma fachada bastante
simplista e homogênea no que dizia respeito à política, economia, sociologia
e psicologia. Teorias não-marxistas-kninistas no campo da evolução
social e das respostas humanas eram rejeitadas. O materialismo dialético
fornecia a única chave para revelar o complexo comportamento dos indivíduos
e das sociedades. Tendo estudado naqueles anos em que os testes de
quociente de inteligência eram desprezados como bruxaria capitalista, Victoria
tinha escasso conhecimento deks e jamais se submetera a um.
Na prática, porém, tendo se dado conta de que este tipo de preconceito
impedia o acesso a importantes pesquisas e conhecimentos, a partir
dos anos 1960 quase todos os secretários-gerais de partidos comunistas
designaram alguns de seus mais confiáveis colaboradores para dirigirem
pequenas unidades especializadas que aplicavam técnicas como testes
padronizados para medir a inteligência das pessoas.
Em sua primeira tentativa, Victoria Valiente deu 42 respostas certas.
De acordo com a quinta norma Hoeflin do Mega Test, ela marcou
176 pontos. Em linguagem corriqueira, aquilo significava que, entre meio
milhão de pessoas, só uma tinha o alto nível de inteligência, estabilidade
emocional e coordenação motora de Victoria.
O velho que pedira que o teste fosse feito - simpksmente chamado Chefe
ou Comandante pebs membros de seu círculo interno, Comandante'
Camaradas em Miami 13
em-chefe em público, Poderoso Chefão, pelas costas, Comediante-emchefe,
em Miami, e Santo Pai por um historiador abjetamente submisso -
sentou-se em sua cadeira executiva para analisar os resultados de
Victoría. Por um lado, era de desapontar descobrir que um carpinteiro
semi-analfabeto e uma costureira haviam apresentado ao mundo um supergênio,
enquanto nenhum de seus filhos conseguiu marcar mais de 130
pontos. Por outro, olhando para o lado positivo das coisas, encontrou
conforto no fato de que entre todos os cretinos incompetentes, submissos
e inseguros que o cercavam, havia um indivíduo que, como provara
ciência, era extremamente inteligente.
Posteriormente, o chefe ficou seduzido quando começou a ler o arqui-i o
pessoal secreto de Victoria. Nascida em le de janeiro de 1959, seus pais a
chamaram de Victoria porque aquele foi o dia em que o ditador
Fulgêncio Batista fugiu de Cuba. Os revolucionários proclamaram
aquele como o Dia da Vitória. O sobrenome de seu pai era Valiente, de
modo que, tanto em espanhol quanto em inglês, seu nome significa' i a
literalmente Vitória Valente e, figurativamente, Vitória Galante. Sem
:onhecê'la pessoalmente, o Chefe promoveu Victoria a tenente-coroneí e
a transferiu para a seção Miami.
O general Lastra desconsiderou por duas vezes as objeções de Victoria
em seu novo cargo. O coronel Mor era a contrariou em quatro
ocasiões. As conseqüências foram catastróficas. Três desses seis recru-;as
revelaram-se agentes duplos, dois dos quais conseguiram infiltrar uma 'ede
de 12 pessoas em Miami que, após três anos de atividades, o FBI
ismanteiou, em J 998. Na noite em que soube do desastre por meio de
seu ministro do Interior, o Chefe chamou Lastra e Morera ao seu
escritório
.
- Micaela aprovou o recrutamento desses filhos-da-puta? — gritou,
apoplético e furioso, quando soube que eram agentes do FBI.
Olhando para as próprias botas bem polidas, o general e o coronel
balançaram as cabeças.
- Eu sabia! - disse o Chefe, triunfante.
Na ante-sala anexa, um auxiliar muito zeloso, ao ouvir seu ídolo se
exaltar e temendo que tivesse um derrame ou um ataque cardíaco, chamou o
médico de plantão. Após sussurros apressados, o médico bateu e entrou no
Olimpo para tomar a pressão sangüínea de Zeus.
— Saia daqui! - berrou o paciente, braço apontando rigidamente para
a porta, no momento em que viu o recém-chegado. O médico empali'
deceu, fez uma rápida meia-volta e fechou a porta atrás de si. Seguiu-se
uma pausa profunda de seis minutos enquanto o Número Um caminhava
a esmo pela. sala. Lastra e Morera mantiveram as cabeças baixas. Final
mente, o Chefe parou em frente aos oficiais, encarando-os.
- Olhem para mim!
Seu rosto se inflamou. A barba grisalha balançou de raiva.
- Seja lá o que Micaela recomendar, mesmo que seja contra o seu
bom senso, vocês farão. Vocês fizeram grandes sacrifícios pela Revolução.
Não quero obrigá-los ase aposentarem prematuramente. Mas se voltarem
a contrariar Micaela, vocês estão acabados. Fui claro?
- Sim, Comandante-em-chefe — disseram os dois em coro.
— Tudo bem, vamos ver agora o que podemos fazer por nossos
camaradas.
Victoria nunca soube que lhe fora dada carta branca, mas os sutis
sinais que começou a receber aíguns dias depois de fazer seu teste de Qí
- cujos resultados eía não pôde ver — se repetiram em fins de 1998:
sorrisos embaraçados, olhos baixos, consideração aumentada for suas
opiniões e recomendações. Claramente lembrando que se opusera ao
recrutamento dos dois informantes do FBI, ela adivinhou que alguém
graudo, talvez o ministro, talvez o próprio Comandante, lera seus
relatórios. Paradoxalmente, o que foi um desastre para o Diretório
tomou-se um privilégio para ela. Não foi nada fácil fingir que estava
triste pelos colegas presos quando em verdade exultava com seu
triunfo pessoal.
A segunda qualidade que Victoria Vaíiente possuía em quantidade
prodigiosa era a capacidade de representar como uma atriz teatral consagrada
internacionalmente.
Como muitos cubanos nascidos, crescidos e educados na era revolucionária,
até os fins dos anos 1980 Victoria acreditou na causa. Ela
completara o ensino me'dio em uma de sete escolas militares geridas
pelas Forças Armadas - as escolas Camiío Cienfuegos - onde se
enfatizava a perfeição do comunismo e o gênio do Chefe ainda mais do
que nas escolas civis. Contudo, com o passar dos anos, à medida que
tinha acesso a informações secretas de toda natureza, quando começou
a ter aulas de inglês e francês, a ler todo tipo de revista e jornal, a
prestar atenção
os críticas cada vez mais freqüentes do marido, e, de 1998 em
diante, a devotar uma média de quatro horas por dia navegando
na internet, Victoria chegou à inescapável conclusão de que o
comunismo estava condenado, em Cuba e em qualquer outro
lugar onde tivesse se estabelecido.
Mas Victoria testemunhara como as carreiras de muita gente
jovem e promissora acabaram abruptamente por terem cometido
o erro de expressar abertamente o seu desacordo. Desde o
primeiro dia em que se sentiu culpada por duvidar da veracidade
de seus ideais juvenis, Victoria soube que deveria ocultar sua
incerteza e fingir que, a cada dia que passava, acreditava mais
e mais na Revolução e em seu Comandante' em-chefe.
A terceira qualidade que Victoria Valiente tinha em
magnitude portentosa era ambição.
Ela mapeou sua progressão. Diretora-geral e brigadeirogeneral,
a princípio, ministra do Interior e general-de-divisão
três ou quatro anos depois, membro do Comitê Central, membro
do Politburo, membro do Conselho de Estado, o céu era o limite.
Victoria deu-se conta de que estava se resignando a ficar do lado
dos perdedores, mas, afinal de contas, não tinha escolha. Estava
bem ciente de que passara o ponto de voltar atrás havia anos.
Por ter um dedo em cada assunto, nunca fora autorizada a viajar
para o exterior. Vendo a coisa pelo lado positivo, não considerando
sua morte súbita, o Chefe poderia manter o país unido
durante uns oito ou dez anos. O que ela tinha de fazer,
raciocinou Victoria, era se tornar indispensável, manter-se fora
de rivalidades internas, nunca questionar as ordens do Chefe, e,
após a sua morte, evitar se aíiar a alguma facção. Todos deviam
ver nela uma especialista de alto nível, desejosa de servir aos
superiores, não a mulher extremamente ambiciosa que de fato
era. Esses princípios-guia nunca abandonaram os recessos mais
profundos de sua mente.
Contudo, à medida que o tempo passava, a preocupação de
Victoria aumentou substancialmente. Sempre que o Chefe
vociferava na televisão horas afio, cometia erros graves. Insultava
qualquer presidente latino-americano que pedisse que ele
respeitasse os direitos humanos dos dissidentes , fazia comentários
muito ferinos a respeito de políticos europeus que diziam que tal
iniciativa benevolente seria muito bem-vinda e chama16
vá de traidores os esquerdistas da Europa Oriental que discordavam de
suas estratégia e táticas.
Muitos de seu meio milhão de espectadores viram, consternados, enquanto
ele espumava pela boca, molhava os dedos com saliva para virar as
páginas e então voltava à velha ladainha.
Proclamava repetidas vezes que a maioria dos governos iatmo-americanos
era de lacaios do imperialismo dos Estados Unidos, que Cuba era a
melhor democracia que o mundo jamais conhecera, que a Revolução tinha
o melhor índice de direitos humanos do planeta. Victoria, assim como
várias outras autoridades governamentais bem informadas, servi' dores
públicos e burocratas de partido que o assistiam em casa, fechou os olhos e
kvou a mão à testa em desespero. Será que ek perdeu a razão? Quem
estava tentando enganar?
Nesta mesma época, os associados mais próximos do Chefe come'çaram a perceber, com crescente preocupação, a sua entrada gradual na
estrada da senilidade. Com total desrespeito à diversidade de opiniões da
nação, ele expunha suas propostas mais estranhas e seus pontos de vista
mais radicais com expressões como "Cuba acredita", "Cuba considera" e"Cuba pensa".
Sabendo quão graves eram as dificuldades econômicas do país, quão
fraca estava a economia após muitos anos de má administração, Victoria
não conseguia acreditar em seus ouvidos sempre que o Comandante criticava
as políticas adotadas em outros países do Terceiro Mundo. Ele enumerava
estatísticas dos altos níveis de desemprego, do número de pessoas
que viviam abaixo do nível de pobreza e da alta dívida externa dessas nações
sem jamais se referir às cifras similares de seu país.
Para Cuba, invariavelmente profetizava um futuro dourado. A iíha
era um farol de esperança para o resto do mundo. Em três ou quatro
anos, assistindo ao canal educativo que ek mandou que fosse criado em
tempo recorde, seu povo se tomaria o povo mais culto do planeta. Os
atletas, médicos, professores, cientistas e músicos cubanos eram os melhores,
seus soldados, os mais valentes, seus trabalhadores e agricultores, os
mais patrióticos. Todos estavam dispostos a morrer para evitar a wí-ta do
capitalismo, procíamava ekaofim de seu discurso bombástico. Incluindo
os diversos milhões que, você sabe, querem emigrar, Coman-dante-em-
Chefe? Victoria dirigiu a pergunta siknciosa para a tela do
aparelho de tevê, desligou-o, e começou a navegar na internet usando as
palavras senescência, seniiidade e AZ^heimer como itens de pesquisa.
Desistiu depois de aígumas horas. Era uma quantidade enorme de
conhecimento que ela levaria anos para assimilar e, para quê? O Chefe
apresentava sintomas preocupantes: irritabilidade, acreditar em uma realidade
que não existia, uma tendência a relembrar anos de sua juventude. Por
outro lado, a sua perda de memória era insignificante, ele freqüente' mente
contava piadas e ria, e nunca pareceu desorientado. Os especialistas mais
capazes cuidavam dele e tinham permissão ilimitada para irem a qualquer
lugar do mundo, sem se preocuparem com despesas, para buscar
medicamentos de vanguarda para retardar o processo de envelhecimento. Ele
era capaz de discursar durante três longas horas de pé sobre um pódio,
fazendo uma pausa apenas para tomar um gole de água. Sendo ela mesma
uma atri£formidável, Victoria se perguntou se o Chefe dava-se conta de que
falhara miseravelmente em todos os aspectos e estava apenas encenando
aquele ato para muitos milhões de compatriotas desinformados. Admitir
/alhos estava fora de questão; implicaria abrir mão do poder, e todo
mundo sabia que o Comandante preferia morrer a voltar atrás.
Em fevereiro de 1996, após a Força Aérea cubana ter derrubado dois
aviões civis dos Estados Unidos, Victoria fez seus neurônios trabalharem
impiedosamente antes de chegar a quatro conclusões. Primeira: aos
poucos, o sistema estava caindo aos pedaços. Segunda: considerando os
seus antecedentes genéticos e o cuidado médico que recebia, o Chefe tinha
provavelmente dez ou mais anos no poder e muito provavelmente morreria
de causas naturais. Terceira: ek ficaria no poder até o último dia porque
aqueles que poderiam tomar o poder de uma hora para outra não moveriam
um dedo. Temiam (a) perder os privilégios e (b) retaliações por terem
executado ou mandado anticomunistas para a prisão. Quarta: seu marido
estava cem por cento certo. Sendo assim, a Sra. Victoria Valiente decidiu
ter mais uma conversa séria com ek naquela noite e depois chupá-lo com
gosto.
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